Capítulo 7
Do livro Até o Galo Cantar - Evangelho para Crianças de Gildálsio de Andrade Starling |
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As tardes na fazenda Santa Maria eram muito gostosas. Um vento fresco começava a tingir as cores com o movimento. Os pássaros, com pressa, tomavam caminho desconhecido. As nuvens passavam ligeiras sem, no entanto, bloquear a luz do sol.
Dona Elza, caminhando apressada, interrompeu meus pensamentos:
- Dr. Rodrigo! Temos visita! Uma senhora está procurando pelo senhor!
- Oh meu Deus! Pensei, em voz alta, enquanto andava em direção à varanda. Será que a dona Mariza voltou? Eu achei que aquele assunto da cura já havia sido superado.
Ajeitei, instintivamente, a minha roupa e procurei me aproximar da pessoa que chegava. Não era a dona Mariza.
Coloquei um sorriso no rosto, daqueles que costumamos dar para as visitas inesperadas, e estendi a mão.
- Boa tarde! Muito prazer, Rodrigo!
- Prazer! Maria Lúcia! Precisamos conversar, Rodrigo! Eu sou a médica do posto de saúde e a dona Mariza é minha paciente há muitos anos ...
Uma mão delicada tocou a minha e um aperto suave completou aquele momento.
- Vamos entrar, lá dentro está mais fresco!
- Pois não!
Trocamos sorrisos amigáveis e caminhamos pela ampla varanda que permitia uma boa visão da fazenda.
Enquanto caminhávamos, eu pensei na dona Mariza e no envolvimento de uma médica naquela história. Achei que a coisa estava se complicando! Fiquei ansioso e decidi aguardar e escutar o que ela tinha a me dizer.
Naquele momento, éramos dois seres em universos paralelos, com pensamentos não compartilhados.
Assentamos na sala, ampla e confortável. Dona Elza entrava e saía, puxando conversa e fazendo barulho. Falava de tudo e de todos! Sabia a história e as notícias dos vizinhos e, com isso, ajudava a quebrar o gelo.
Maria Lúcia apresentou, logo de início, uma característica que me perturbou, ela parecia emitir luz nos olhos, à medida em que falava. Um brilho estranho, que reluzia.
- Rodrigo! Você sabe por que eu estou aqui, não é?
- Eu imagino! E posso explicar tudo o que aconteceu! Falei defensivamente.
- Antes, eu gostaria de lhe explicar que eu cuido da dona Mariza há muitos anos. Acompanhei o processo dela desde o início e posso lhe assegurar que aconteceu um verdadeiro milagre, uma cura inexplicável dado ao agravamento do quadro.
- Se você me permite, antes de lhe dar a minha versão do que aconteceu, eu gostaria de lhe perguntar se você tem alguma religião?
- Eu posso dizer que tenho todas, já que eu tenho o Cristo em meu coração. Já procurei muitas religiões, ritos e cultos, mas, acabei ficando com o Cristo só pra mim, guardadinho e pronto para me ouvir, me proteger e me orientar.
- Então, você é uma seguidora do Cristo?
- Isto mesmo! Por que a surpresa? Eu sinto o Cristo como o meu caminho.
- Desculpe o meu jeito! É interessante demais você se colocar desta maneira, pois eu também sinto que sou um seguidor do Cristo. É muita coincidência! Essa visão tão próxima e tão profunda!
- Eu li um livro uma vez que dizia que coincidências não acontecem... Portanto quem saberá dizer. A verdade é que eu acho o Cristo um ser altamente especial!
- Especial em que sentido? Falei ajeitando-me na cadeira, focando o assunto com toda a minha atenção.
- Eu acredito na missão do cristo entre os homens como um grande Pastor Cósmico, encaminhando as almas para um novo lugar – uma nova Jerusalém.
- É uma visão encantadora!
O tempo passava com uma intensidade estranha pois o entardecer e a noite já haviam começado a interminável batalha das horas. Os meus pensamentos acelerados acabavam gerando aquela sensação gostosa de comunicação fácil, provocada pela similaridade de conceitos e pela profundidade que confortava.
Eu me sentia motivado, como há muito tempo não sentia!
- E, eu posso saber qual é a sua visão do Cristo, Rodrigo?
- Claro! Para mim, o Cristo representa a fé pessoal, viva, original, espontânea e puramente espiritual. Representa uma vida religiosa sem paralelo, uma consciência da presença de Deus e uma comunhão constante com Deus.
- Puxa, que profundidade Rodrigo! Agora, eu que fiquei impressionada! Eu posso dizer que concordo inteiramente com você! Me diga quais são as suas fontes? Alguma religião específica?
- Não, Maria Lúcia! Desde que a minha esposa Suzana faleceu, eu tenho buscado a verdade, a razão de todas as coisas sem preconceitos religiosos e sem ...
As lágrimas chegaram de surpresa. Inesperadas! E, promoveram uma pausa naquele debate envolvente que nutria a minha alma. A menção do nome da minha mulher parece que promoveu uma conexão profunda com algo que estava adormecido. E alguns momentos de silencio compreensivo de formaram.
Como que combinado, dona Elza e Carlinhos entram na sala, com pães de queijo e refrigerante, pisando firme naquele assoalho de tábua corrida, parecendo assombrações desgovernadas.
O susto foi geral! Estávamos tão concentrados que pulamos assustados, juntos, na mesma hora, e começamos a rir, às gargalhadas.
Carlinhos e dona Elza ficaram mudos, sem entender. Eles não sabiam para onde ir, um pouco sem graça. Foi uma cena muito engraçada!
- Então, este menino é o famoso Carlinhos! Venha aqui menino e me dê um abraço!
Maria Lúcia abriu os braços e ele, recuperando o seu jeito natural de ser, correu para aqueles braços abertos, sem constrangimentos.
- O que você tem feito, menino? O que está aprontando por aí?
- Nada não, tia!
Ele baixou a cabeça, sem saber o que dizer. Aí, eu interferi:
- Carlinhos, onde você estava? Não viu o carro da dra. Maria Lúcia chegar?
- Vi sim, tio. É que eu fiquei com medo de aparecer!
- Medo de que, Carlinhos! Eu sou tão feia assim?
- Não, tia! É que a dona Elza me falou que a senhora veio até aqui para reclamar das artes que eu fiz. Aí, eu fiquei com medo de ser castigado!
Num gesto automático, olhamos juntos para dona Elza, que acabava de colocar os pães de queijo sobre a mesinha de centro da sala. Ela balançou a cabeça e saiu rapidinho, nem deu tempo para eu falar nada.
- E, afinal de contas Carlinhos, o que você fez de tão errado que merece até castigo?
- Eu estava até conversando no paiol, com as pombinhas que fazem os ninhos lá, sabe. Eu nem sei direito o que aconteceu! Eu fui até a casa da dona Elza para contar pra ela uma história que o tio Rodrigo me contou. Era sobre a filha de Jairo que o Cristo curou. Uma história muito bonita, precisa ver só!
Quando ela dormiu, eu resolvi fazer que nem o Cristo fez e peguei na mão dela e coloquei a outra assim, pedindo a Deus que a curasse, porque ela é muito boazinha e estava muito doente.
Depois eu vim embora para casa e ela curou sozinha. Até hoje eu não entendi!
Será que é errado querer curar uma pessoa que estava sofrendo há tanto tempo?
Ela ficou tão bonita na carroça quando veio me visitar, eu acho que valeu a pena, a senhora não acha?
Agora as lágrimas resolveram passear no rosto calmo de Maria Lúcia. Ela puxou o Carlinhos para junto de seu peito e deu um abraço apertado e longo, se recuperou rapidamente, e falou baixinho para ele:
- Carlinhos, outra hora eu quero conversar com você sobre isso, ok? Fique tranquilo, você não fez nada errado. O Cristo age sempre através das almas puras e amorosas.
Ele concordou com um aceno de cabeça. Parecia estar confortável naquele aconchego.
- Meu Deus! Olha só as horas como voaram! Preciso ir embora. Precisamos conversar mais, Rodrigo. Eu tenho muito que aprender com vocês!
- Que isso Maria Lúcia! Nós é que aprendemos com você, não é Carlinhos?
Ela pegou uns dois pães de queijo e saiu comendo, em direção à varanda.
Trocamos mais alguns comentários sobre o tempo, a fazenda e as flores multicoloridas que teimavam em nos encantar.
Ela manobrou o carro, acenou e sorriu, seguindo seu caminho deixando no ar aquela sensação de coisa boa. Como eu fiquei parado, olhando a estrada até o carro sumir, Carlinhos puxou a minha blusa para baixo e perguntou com ar de safado:
- Ela é sua namorada?
- Que isso menino! Tá ficando maluco! Ela só veio conversar comigo e ...
De repente eu percebi que estava explicando demais, justificando demais. E, pensei comigo: “namorada, nessa altura do campeonato!” Esse menino não é fácil não!
Carlinhos correu, pela varanda, saltitante. Eu ainda olhei para a estrada e pensei: “namorada!”.
Sentei no sofá da sala – poucas luzes e muitas lembranças, quando observei a Bíblia aberta e, sem a intenção de estudá-la, li o que estava escrito: “por que olha o cisco que está no olho do seu irmão e não vê o tronco que está no seu?”
Nesta hora, eu pensei como o Cristo é mágico! Como Ele disse coisas extremamente profundas e permanentes! A sabedoria era tanta que o conhecimento não se perdeu com o tempo e não ficou desatualizado.
Como nós somos eficientes em observar os problemas e as dificuldades dos outros! Como nós temos sempre prontos, comentários desastrosos e dardos envenenados!
Nós somos incapazes de observar o “tronco” em nossos olhos, os nossos próprios defeitos, às vezes, tão aparentes e tão agressivos!
Agora, o que é mais incrível, é que esses ensinamentos têm 2.000 anos. A gente imagina que a vida mudou tanto, que tudo se tornou mais veloz, mais tecnológico e, no entanto, o comportamento das pessoas continua o mesmo.
O relógio marcava 22 horas e, entrou pela sala, um menino despenteado, com cara de quem estava cochilando.
- Tio, eu não consigo dormir! Fiquei pensando nesses últimos dias. Quanta coisa aconteceu, não é mesmo?
- É Carlinhos. Você está crescendo e está percebendo que todas as nossas ações trazem conseqüências. É como se você, ao agir, alterasse o equilíbrio natural das coisas. Eu estou falando de ações positivas e negativas. Você está compreendendo, meu querido?
- Mais ou menos!
- Comece a ver a vida como uma estrada que está sendo construída na medida em que caminhamos. As curvas, pontes ou buracos são conseqüências diretas daquilo que pensamos, agimos ou sentimos. Nós construímos o nosso próprio futuro. Nós atraímos os nossos amigos, por sintonia e por merecimento. Nada acontece por acaso!
- Assim como o sr. atraiu a tia Maria Lúcia?
- Carlinhos! Tá na hora de ir pra cama! Já passa das dez! Não se esqueça de rezar pro seu amigo o Anjo da Guarda, ok?
- Boa noite, tio!
- Boa noite, pestinha! |